sábado, 17 de agosto de 2013

III. O Amargo sexo oral da Viúva Amante

Andrea amava Alice, que era loucamente apaixonada por Marcela, que, dizendo gostar muito de Alice, não via mais razões para viver. Poderia “Quadrilha”, mas não poderia o poema ter sido inspirado n’outros tantos casos como este? Interessa saber que esta história aconteceu – eu vi – mas não com estes nomes ou com estas pessoas. Ela vai se chamar: O Amargo casamento da viúva amante.
Por Nário Gangá
O Amargo sexo oral da Viúva Amante

            Alice aliciava, vastamente, a entidade divina feminina chamada Marcela. Selava varias cartinhas de amor e mandava. Ao final de cada mensagem, ou versinho, por mais pobre que fosse, assinava: “Se amasse ela, Marcela seria feliz”.
             Tal amostra desse amor poderia ser encontrada numa breve visita à casa de Alice, que vivia em uma relação estável com Andrea. De fato, as duas eram felizes no mundo que construíram para si, todavia, Alice não poderia, nos demais lugares, agir como embaixadora dessa tal felicidade. Devido, a uma paixão que de todos escondia: Marcela!
            As duas tinham um tipo de relação quase essencial, não importando o que poderia haver de acessório em qualquer outra relação. Brigas, aniversário de namoro, longas discussões e ligações que tomavam melhor tempo não existiam, só o que havia de mais essencial nos sentimentos mútuos entre duas mulheres; também não havia sexo, ou muitos beijos, ainda, mas este “ainda” vinha se arrastando por quase um ano.
            A relação das duas se dava longe dos olhos do mundo, mas não em um lugar longe o suficiente para que Alice conhecesse, de fato, Marcela. Tal situação favorecia – ou desfavorecia – a imagem que Alice concebia de Marcela. Só adora a deus aquele que nunca foi ao Paraíso.
               O encontro era sempre marcado por volta da hora do almoço, perto da Praça da Cruz, onde as paredes do Museu do bairro se fechavam em um pequeno jardim, frequentado tão somente pelos pássaros e pelas larvas que devoravam as goiabas pendentes nas árvores. A luz do sol pousava nos lábios de Marcela como vidros de uma janela quebrada, tornando aberta e perigosa a entrada por ela. Marcela sempre escolhia o canto onde o sol, àquela hora do dia, iluminaria somente sua boca. Certa vez, ao ser inquerida pelo motivo de sempre se sentar ali, disse:
– Não sou a Deusa para que meu rosto fique todo iluminado... Na verdade, eu quero ter uma boca morena como a tua.
            Disse isso e sorriu. Alice sorriu sem jeito, ensaiou dizer algo, mas Marcela acabara de olhar no relógio. Chegara a hora de ir embora. Cada um dos ponteiros do relógio da Marcela caiu com decaptadora força sobre Alice. Marcaram de se ver no domingo próximo, em outro lugar que não aquele. Com cordialidade, beijaram-se os rostos com as bochechas e partiram, cada qual para o seu lado.  
            A semana se passou arrastada, e cada beijo que Alice dava em Andrea era um ensaio para o beijo que haveria de dar em Marcela. A forma como a boca de Alice acariciava o seio de Andrea servia de treinar a carícia que faria em Marcela... Foram tantas carícias que Andrea recebeu que até se sentiu mais amada. Coitadinha...
            Na quarta, Marcela disse estar gripada, mas confirmou o encontro. Marcela estava pensando em um lugar.
            Na quinta a asma descompensou, e as duas não se falaram. Marcela não tomou remédio e tinha horror a hospitais.
            No sexta, Marcela fingiu que estava tudo bem, e não tomou nenhum remédio. Marcela achava errado postergar a morte, já que não escolhemos o dia de nascer.
            Sábado, Marcela morreu de Asma.
            Domingo foi o dia de Alice segurar o choro. Sua melhor amiga, a amada Andrea, não podia saber o motivo do pranto. Alice sofreu sozinha e para ninguém podia contar o porquê de tamanha infelicidade.

            Contam que, depois, Alice viveu de desgosto! 

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